Trítono ou diabulus in musica

Você já deve ter ouvido essa expressão. Talvez pense que ela queira dizer uma melodia, ou uma harmonia que teria sido proibida pela igreja católica durante a idade média. De onde diabos veio isso? Ou, se você nunca ouviu falar dessa expressão, continua lendo, porque é interessante.

O Vaticano é conhecido por proibir coisas. Vero. O index librorum prohibitorum é um fato. A primeira lista dos “livros proibidos” data do século XVI. E até hoje existe. Resta saber se há edições na biblioteca cuja proibição católica não resistiu a era da Internet.

Não acredito naquela fanfarronice de “O Código Da Vinci“. Também nenhum papa jamais me deixou entrar para conferir.

Mas não é bem isso que aconteceu na música. A cultura popular se apropriou da história para criar seus mitos.

Na primeira vez que a expressão foi utilizada, ela serviu para designar uma relação harmônica na música que o compositor não conseguia resolver. A expressão indicava mais uma dificuldade do compositor do que uma sensação que a harmonia pudesse transmitir aos ouvintes.

O que isso quer dizer “resolver a harmonia”? Vamos, muito resumidamente, tentar explicar. Passemos por cima de vários detalhes e complexidades de teoria musical. Este não é um blog de música, certo?

Pensa o seguinte. Ou ouve.

Quando você escuta uma música, ela “caminha” por várias notas, correto? Desde a nota do tom (por exemplo, a nota Dó), passando por outras tantas, até, eventualmente, retornar à nota original ou a alguma outra que, para o compositor, servia como uma “conclusão” da composição. Quando você escuta uma música, você pode sentir esse caminho, mesmo não tendo nenhum conhecimento de teoria musical ou de algum instrumento. Você sente que, em determinado momento, a música termina. Ela encerra uma frase, quase como se fosse uma argumentação que chegou ao final. Essa sensação que a finalização da música passa é a sua resolução harmônica.

A expressão diabulus in musica originalmente designava uma dificuldade em que o compositor se encontrava para resolver a harmonia da música.

Isso porque, até bem pouco tempo na história da música ocidental e, principalmente, na Idade Média, a ideia que perpassava as composições (quase todas vinculadas de alguma maneira à Igreja Católica) era a da necessidade de um equilíbrio, uma harmonia tranquila e sem tensões. Uma paz. Algo sagrado. Você pode conferir isso nos Cantos Gregorianos e em vários compositores de música sacra medieval, mas ainda grande parte da música popular segue, em certo modo, esse mesmo princípio.

E o trítono? Rapidinho uma aulinha de harmonia, novamente, sem aprofundamentos…

O trítono é um intervalo (a “distância” entre duas notas) de três tons. Entre as notas, conta-se um tom inteiro ou, às vezes, meio tom. Então, entre Fá e Sol, há um tom inteiro, assim como entre Sol e Lá e entre Lá e Si. Portanto – faça as contas – entre Fá e Si há três tons inteiro: um trítono.

O trítono é uma dissonância. Se você pegar um violão emprestado, ou pedir para algum amigo te mostrar no piano, tente tocar um Fá e um Si ao mesmo tempo.

Você sentirá que há algo de errado ali. Algo que está fora do lugar. Um desequilíbrio. Uma desarmonia. Essa situação harmônica acabou sendo confundida com o diabulus in musica, dado que, de certa forma, consistia também em uma dificuldade para o compositor, digamos assim.

Portanto, por causa dessa dissonância, os compositores medievais evitavam esse intervalo, pois – e com isso eu concordo – ele não traz a sensação de paz e tranquilidade que a música religiosa e estilo estético da época pediam.

De todo o modo, houve alguns que tentaram. Até mesmo em cantos religiosos e missas. O trítono, portanto, jamais foi proibido. Mas o mito estava em que o trítono era o som do diabo (ou algo assim) e, como quem conta um conto, aumenta um ponto, teria sido proibido pela Igreja Católica. Não sei como o Dan Brown não usou isso em algum de seus livros.

Não ajudou o fato de que a banda Black Sabbath tenha feito uso do mais conhecido trítono da música popular, na canção homônima. (Só de curiosidade: o intervalo entre Sol e Dó Sustenido – ver nota no final).

Outros músicos de Jazz e Blues fizeram isso, como John Coltrane, por exemplo. Vale escutar o álbum “Bags & Trane” desse espetacular saxofonista.

Quanto à banda de Ozzy Osbourne, segue o link, para seu deleite:

Nota.
A explicação é a seguinte: Entre Sol e Lá há um tom. Entre Lá e Si há outro tom. Porém, entre Si e Dó há somente meio tom. Portanto, para somarmos os três tons do trítono, precisamos de mais meio tom. Se subirmos o Dó esse meio tom de que precisamos, encontramos o chamado Dó sustenido.
Fica assim:
Sol > +1t > Lá > +1t > Si > +1/2t > Dó > +1/2t > Dó sustenido.

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