Canto do King: Desespero

Coluna Canto do King - Larissa Prado - Canto do Gárgula
Coluna Canto do King – Larissa Prado

A cidade amaldiçoada

Na análise de hoje vamos falar aqui na Coluna Canto do King sobre Desespero, um dos livros mais aterrorizantes escritos por Stephen King. Na minha opinião, a safra de obras dos anos 90 reúne as histórias mais assustadoras do escritor.

Desespero - Stephen King - Editora Suma - Larissa Prado - Coluna Canto do King - Canto do Gárgula
Desespero – Stephen King – Editora Suma

O livro Desespero faz jus ao título. Do início ao fim o livro está entremeado por desespero. Seja o desespero dos personagens presos nas situações mais bizarras possíveis, seja o nosso por acompanhá-los.

O livro foi adaptado para cinema com o título Desperation, dirigido por Mick Garris e lançado em 2006. É um filme bom e consegue passar a atmosfera angustiante que cerca a cidade da história, além de contar com a atuação de Ron Perlman como o policial esquisitão Entragian. Não conseguiria pensar em alguém melhor para o papel. Porém, costumo orientar sempre que as pessoas para que leiam os livros do King antes de conferirem as adaptações para cinema ou minisséries.

Sem mais delongas, vamos investigar os elementos dessa história que a tornam algo tão obscuro dentre as obras criadas por King. O livro foi publicado em 1996, apesar de considerar um dos melhores livros do autor, não o vejo entre os mais populares do autor entre os seus leitores. A publicação é da Editora Suma e a tradução fica ao encargo de Marcos Santarrita.

A caminho de Desespero

O livro é dividido em cinco partes que vão nos conduzir pela história pouco a pouco. King não tem pressa em entregar tudo de uma vez. Cada capítulo nos mostra um pedaço do que está por trás da história da cidade Desespero.

No início, somos jogados numa autoestrada onde o casal Mary e Peter estão viajando de carro. Eles são de Nova York, típicos cidadãos urbanos que a todo momento comentam da vida interiorana e suas peculiaridades. A princípio, estão cheios de brincadeirinhas e boa vibração um com o outro. Como acontece em quase toda abertura de histórias do King, o que é bom não dura muito e logo eles se deparam com aquele que se tornou um dos personagens mais sombrios criados por King: o policial Collie Entragian.

Collie Entragian aborda o casal Mary e Peter para uma fiscalização de rotina, mas logo, percebem que o homem não é flor que se cheire. O policial encontra uma quantidade considerável de maconha no porta-malas. Mary culpa a cunhada pois o carro é dela e por ser uma viciada. Entretanto tudo nos leva a crer que quem plantou a droga foi o próprio Collie em algum momento de distração do casal.

Mary e Peter são os primeiros personagens apresentados para nós, mas não são eles que me chamam atenção. Peter é fraco como personagem e fica claro que foi colocado no enredo apenas para morrer assim como acontece com outros. No decorrer da história, conhecemos outros personagens que se tornarão a chave da narrativa.

A caçada continua

Depois de capturar Mary e Peter, o policial Collie encontra Johnny Marinville, um escritor de meia-idade que decidiu viajar em sua Harley pelo deserto para escrever o que seria seu último grande livro. Johnny é um personagem prepotente, cheio de si e que passou boa parte da vida ocupado com a fama que seus livros trouxeram. Percebo críticas sutis por parte de King ao escritor-celebridade na construção desse personagem.

Porém, dentre todos os personagens e contrariando as expectativas, Marinville é, sem dúvida, o que tem mais carisma apesar do seu jeito egocêntrico. Ele traz leveza e um toque de humor a uma história pesada e violenta.

Na primeira parte do livro, acompanhamos a “caçada” de Collie em sua viatura de polícia através das rodovias que levam à cidade de Desespero. Pois, é isso que ele é, um caçador. King revela, cada vez que introduz um personagem novo, a capacidade sobrenatural que Collie possui em conversar com a natureza em volta. É como se ele controlasse os coiotes e aves do lugar através de um dialeto estranho.

O encontro com Marinville é mais violento do que o do casal Mary e Peter. Collie espanca o escritor e o leva algemado alegando que ele carrega maconha. A história da apreensão por drogas se repete o que nos leva a crer que Collie arma para as pessoas a fim de levá-las para a cadeia.

Cada cela, uma história

É no ambiente da cadeia da cidade de Desespero que conhecemos o resto dos personagens que compõe a história. Temos ali, a família Carver: o pai Ralph, a mãe Ellie e o garoto David. O velho morador de Desespero, Billingsley. Além de Mary e o último a chegar, Marinville.

King não entrega a história de forma linear. Vamos conhecer a história da família Carver entre a prisão de Mary, Peter e Marinville. A abordagem que Collie faz do furgão da família é ainda pior.

Collie realmente armou para que os pneus furassem e Ralph tivesse que encostar o trailer. Se até agora fomos arrastados pela prisão do casal sem graça Peter e Mary e conhecemos o carismático escritor Marinville, não esperávamos que a história fosse girar em torno de um dos personagens mais interessantes criados por King, o garoto David Carver.

Quem é David Carver?

A princípio, David Carver parece apenas mais um garoto de uma família comum dos Estados Unidos. Não prestamos atenção nele, até porque convenhamos, o policial se desintegrando de dois metros de altura rouba nossa atenção durante todo o livro.

Mas quando David Carver perde sua irmã mais nova, Pie, empurrada de uma escada na cadeia por Collie, conhecemos aquele que ocupará o lugar do herói nessa história. David não é o tipo de garoto revoltado, choroso e confuso. Diante da morte da irmã ele se torna introspectivo e reflexivo. E King dá saltos no passado em forma de flashbacks para entendermos o porquê de David ser assim.

Quando seu melhor amigo sofreu um acidente ficando entre a vida e a morte, David que buscou apoio em um padre, começou a pedir para alguém (Deus) salvar o amigo. A sua oração é uma espécie de conversa interna e David recebe um sinal, interpretando-o como a ação de Deus atendendo ao pedido. Mas, a voz que David escuta é a sua voz interna?

Para desgosto do pai, David se torna uma criança muito religiosa que passa a maior parte do tempo lendo a bíblia e tentando compreender os mistérios de Deus. Ralph o recrimina, pois, não confia no padre que se tornou o conselheiro do filho, a mãe tenta apaziguar. Não quero me alongar nessa questão, por isso, vamos ao que interessa.

O poder da fé?

O poder da fé de David salvou o grupo da cadeia. Ele foi aquele que encontrou coragem suficiente para sair da sua cela e buscar ajuda. Como? David rezou para seu Deus (aquela voz interna que salvou o amigo da morte certa) por uma solução para sair daquela situação na qual estavam. Foi quando teve a ideia de passar sabonete no corpo e deslizar entre as grades. A ideia é totalmente improvável. O pai grita para que o filho não faça isso enquanto Marinville e Mary incentivam.

David consegue escapar, mesmo que diante toda dificuldade do ato. Ele enfrenta um coiote que vigia as celas e consegue sair. O poder da fé de David guia o menino o tempo inteiro para que aja em prol do grupo. Apesar do pânico, da perda e da dor, ele consegue ir adiante. A formo como King constrói a ideia de Deus aqui está associada a força interna que o garoto possui e a capacidade que ela tem de transformar as coisas em volta.

Talvez, o fato desse personagem ser apenas um garoto esteja associado à ideia de inocência. Não é o primeiro livro no qual King deposita o heroísmo nas mãos de uma criança. Lembremos de It (leia nossa resenha aqui) e o grupo de crianças que enfrentou A Coisa para livrar Derry. É como se King acreditasse na força interna que possuímos quando somos crianças e perdemos à medida que ingressamos numa vida adulta sem imaginação.

Desespero e a “coisa ruim”

Sabemos que David Carver é aquele que guiará o resto dos personagens para escapar das garras do policial Collie. Apesar do aspecto macabro girar em torno da figura do policial gigante e violento, a “coisa ruim” presente nessa história está impregnada em toda cidade de Desespero.

Uma força ancestral, animal e faminta controla a cidade. É como se as pessoas fossem controladas por essa força. Durante a história, Steve e Cynthia, personagens que vêm de fora para resgatar Johnny Marinville, encontram um artefato na cidade em forma de lobo. No momento que Steve toca nesse objeto sente-se atraído para “o lado negro da força” dentro de si e até cogita machucar a sua parceira Cynthia. Steve e Cynthia são personagens importantes, mas não vou me alongar falando sobre eles e me concentrar nos aspectos macabros dessa história.

Isso explicaria a transformação pela qual passou Collie. Billingsley, o morador antigo de Desespero, relata que Collie era um homem grande, truculento, mas não chegava a ser violento e louco como agora. Ele está maior e possuído, como se algo dominasse a sua mente. Algo que o tempo todo interfere nos seus pensamentos e atos.

Tak ah lah

É assim que Collie se comunica com a força da natureza: Tak ah lah. Um dialeto antigo, talvez indígena, que a todo momento é recitado por Collie entre uma fala e outra. Os personagens que entram em contato com o policial estranham esse tique, mas não dão muita importância. Afinal, há coisas piores em Collie para se preocupar. Sua aparência, a forma que seu corpo se desintegra é a pior característica que King dá a esse personagem.

Sabemos mais sobre o passado da cidade de Desespero pela fala de Billingsley depois de beber além da conta. Conta sobre a mina na cidade, como os trabalhadores chineses eram explorados e foram obrigados a cavar tão fundo que a mina cedeu, soterrando-os. A lenda conta que cavaram tão fundo que despertaram antigas forças adormecidas no centro da terra.

O aspecto sobrenatural da história apoia-se no passado de Desespero e nessa história sobre a mina. O que é comprovado na parte final do livro em que o grupo de sobreviventes vai até lá. Todos são afetados pela incursão na mina de alguma forma, e quando você acha que vão conseguir se safar, os personagens mais queridos morrem. Porque é isso que King costuma fazer conosco.

A maldição dissipada com a fumaça

Há uma explosão na mina, perdemos o carismático Marinville, Ralph, Billingsley. Os únicos sobreviventes são Mary, o que me surpreendeu, pois achei que seria a primeira a morrer quando saíssem da cadeia. Cynthia e Steve e o garoto David Carver.

Os personagens terminam a incursão pelo inferno de Desespero, totalmente transformados. David Carver comprova o poder da sua fé no fim de tudo. Depois de perder toda sua família, a sua via crucis termina ao lado de Mary.

A mina de Desespero explodiu e dissipou na fumaça a “coisa ruim” que vivia na atmosfera da cidade. É David Carver quem vê a forma de lobo subindo ao céu junto da fumaça da explosão e é o garoto que tem a última epifania na história.

Para além do sangue e loucura

Desespero não é apenas uma história de horror cheia de vísceras, cadáveres e loucura. É um livro de superação. Uma história triste, violenta e cheia de referências ao poder da natureza, à fúria animal que existe em todos e o poder da fé.

Larissa Prado - Escritora - Canto do Gárgula
Larissa Prado – Escritora

A fé no caso não é representada no sentido religioso. Apesar de David dar o nome de Deus ao que escuta e acredita, o aspecto da fé na história está além de concepções religiosas. A fé nesse caso é a força de acreditar em si mesmo e fazer o possível para superar e lutar. É com David Craver que vemos o Mal da história ser dizimado. Porque ele não deixou de acreditar que sobreviveria mesmo perdendo àqueles que mais amava.

Então, pessoal, vocês já leram Desespero? O que acharam? Espero vocês na próxima segunda-feira!

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