O horror de O Papel de Parede Amarelo

Um conto de horror gótico

Li O Papel de Parede Amarelo, da escritora americana Charlotte Perkins Gilman (1860 – 1935), e fui arrebatada. Lançada em 1892, a obra foi por muito tempo considerada e divulgada como um conto de horror gótico. Decerto, não deixa de ser verdade, mas ela é isso e muito mais.

O Papel de Parede Amarelo - Charlotte Perkins Gilman - Editora José Olympio
O Papel de Parede Amarelo – Charlotte Perkins Gilman – Editora José Olympio

Não se permita enganar pelo tamanho desse pequeno livro. Apesar do texto ser, de fato, apenas um conto, há muito conteúdo ali. Essa edição da Editora José Olympio, com tradução de Diogo Henriques, traz dois textos complementares essenciais. Em suma, eles nos auxiliam a reconhecer a grandiosidade da obra e de sua autora. O primeiro é a apresentação da filósofa gaúcha Marcia Tiburi. E ao final, um riquíssimo posfácio da pesquisadora americana Elaine R. Hedges.

Terror comparado a Edgar Allan Poe

O conto mostra o tormento psicológico de uma mulher sofrendo o que hoje podemos chamar de depressão. A fim de vê-la se recuperar, o marido médico a leva para uma temporada de repouso em uma casa no campo. Lá, o tratamento recomendado é bastante questionável. De fato, ele vai contra tudo o que entendemos ser essencial para uma mente saudável. A protagonista é então confinada em um quarto revestido por um sinistro papel de parede amarelo. Como resultado, ela passa a sofrer com terrores externos e internos que começam a se misturar de forma vertiginosa.

A história é narrada em primeira pessoa pela protagonista, que escreve os acontecimentos em seu diário. Assim, é ela quem nos conduz para dentro de um espiral de eventos assustadores. O final, para mim, foi como um soco no estômago. O texto de Perkins é inclusive comparado ao estilo de Edgar Allan Poe, o que sugere a atmosfera angustiante da trama. Além disso, há certamente um forte motivo para consternação, espanto e revolta: de acordo com o relato do posfácio, o conto foi baseado em fatos autobiográficos.

Um clássico da literatura feminista

Na capa, uma chamada sugestiva: “Um clássico da literatura feminista”.  Você é uma daquelas pessoas que reage negativamente diante da palavra “feminista”? Se acaso for, volte duas casas e repense. Ou leia esse livro de ponta a ponta com mente e coração abertos. Acima de tudo, você irá perceber a sutileza, a força e a relevância dessa obra magistral e tudo que ela denuncia.

Além da ameaça sombria que deixarei para cada leitor descobrir e interpretar, há outro terror ali, bem real e concreto. Inegavelmente, é a opressão de uma sociedade patriarcal e suas fatídicas consequências para as mulheres. Assustador também é saber que, mais de um século depois, o tema continua atual. Os textos da apresentação e do posfácio nos ajudam a compreender a releitura que a obra tem tido ao longo das últimas décadas. Da mesma forma, entendemos as razões que a levaram a ser alçada ao patamar de libelo feminista. Assim como o fizeram outras autoras do século XIX, Perkins utilizou a literatura para algo além do entretenimento artístico. Sem dúvida, ela estava gritando contra as esmagadoras pressões sociais e várias formas de tolhimento de liberdade que as mulheres em sua época sofriam.  

A discussão, infelizmente, continua a ser necessária. Afinal, ainda hoje, homens decidem sobre nossos corpos, responsabilidades, salários. Até mesmo sobre nosso direito de andar em segurança na rua. Ou sobre nosso direito de viver após o término de um relacionamento abusivo. Feminismo, para quem ainda não sabe, é a luta por respeito e por direitos. Não é uma tentativa de dominação feminina ou de vingança. A ideia do feminismo não é o equivalente feminino a machismo. A luta feminista é sinônimo de justiça e igualdade.

Um nome para não esquecer: Charlotte Perkins Gilman

Charlotte Perkins Gilman - Escritora
Charlotte Perkins Gilman – Escritora

Charlotte Perkins Gilman deixou uma vasta produção sobre a luta feminista, incluindo muitos textos de não-ficção. Sua trajetória familiar e profissional, apresentada no posfácio, me fez admirá-la ainda mais. Eu já havia lido dela o romance com ares de ficção científica e fantasia Terra das Mulheres (1915), que me marcou muito. Então, fui ávida para a leitura de O Papel de Parede Amarelo. Mas não esperava por algo tão impactante. Fiquei muda. Fui atravessada. É uma história para se ler as entrelinhas, os simbolismos, o jogo de palavras. Uma obra profunda, poética, contundente, feroz, visceral. Faltou o ar.

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7 comentários em “O horror de O Papel de Parede Amarelo

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  1. Caramba, que resenha incrível! Eu estou maravilhada tanto com o conto quanto com a escrita da Camile. Resenha completa, mas sem ser cansativa, com um texto fluido que te instiga a querer saber mais sobre a incrível Charlotte e sua obra!
    Parabéns pela nova coluna aqui no blog. 👏

  2. Mulher, meus ossos véi não aguentam essa massagem no ego não… kkkk. Muito obrigada! Vindo logo de vc, escritora que inclusive estuda o horror feminista, foi como passar numa prova de fogo. Valeu demais pela força!

  3. Eu li o Terra das mulheres e confesso que não curti, tanto que abandonei. Porém tenho curiosidade de ler esse, me chama bem mais atenção por ser algo mais vívido do cotidiano.

      1. Eu diria que é um horror muito mais próximo a experiência feminina e talvez por isso ganhe uma perspectiva incrível para as leitoras. Eu fiquei muito impactado lendo e principalmente sabendo que era um relato sobre uma vivência dela.

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