Pequenos Contos de Grandes Mestres do Terror

Fiz a leitura de Pequenos Contos de Grandes Mestres do Terror. A Skript Editora lançou essa coletânea de contos de terror em 2020. A obra traz dez contos de grandes nomes da literatura nacional e internacional. A saber: Daniel Braga, nosso anfitrião aqui no Canto do Gárgula, foi quem organizou.

Pequenos Contos de Grandes Mestres do Terror - organizador Daniel Gárgula - Editora Skript
Pequenos Contos de Grandes Mestres do Terror – organizador Daniel Gárgula – Editora Skript

Antes de mais nada, a proposta é percorrer um século na história da literatura do terror. Assim, os contos escolhidos vão de 1831 a 1927, apresentados em ordem cronológica. O livro conta com um prefácio do professor doutor Alexander Meireles da Silva. Certamente muitos amantes da ficção especulativa o conhecem por sua atuação no canal Fantasticursos. O pesquisador situa historicamente a produção de cada um dos autores da coletânea, ao passo que Daniel Braga começa assinando uma introdução geral do livro. Além disso, o organizador tece também pequenos textos que antecedem cada conto. Eles contextualizam as obras e decerto instigam ainda mais a leitura.

Mary Shelley além de Frankenstein

No time de autores estrangeiros, a única mulher é a britânica Mary Shelley (1797 -1851). Aliás, você já leu alguma coisa dela, fora o Frankenstein (1818)? Em primeiro lugar, abrindo esse livro, temos o seu conto Transformação (1831). Lançado, portanto, mais de uma década depois da publicação da mais famosa obra da autora. Nesse conto, Shelley envereda por outro tipo de terror, no campo do sobrenatural, enquanto em Frankenstein utiliza-se mais da ficção científica. Ainda assim, podemos traçar paralelos entre os dois textos. Por exemplo, em ambos temos protagonistas masculinos. Sobretudo, são homens que causam sofrimento para si e para outros a partir de suas próprias atitudes. Afinal, são conduzidos por vaidade, egoísmo e presunção. Ademais, ambos transferem a culpa de suas mazelas para entidades externas. Inegavelmente, as criaturas são frutos de seus respectivos comportamentos narcísicos.

Autores estrangeiros de peso

Edgar Allan Poe (1809 – 1849) é um dos autores presentes na coletânea. Seu conto chama-se O Estranho Caso do Sr. Valdemar (1845). Ele aborda uma aterradora situação a partir do mesmerismo, prática precursora da hipnose. Sem dúvida, a história tem um daqueles finais devastadores típicos do autor. Ambrose Bierce (1842 – 1913 ou 14) chega com O Estranho (1909). É um texto cheio de suspense e com uma atmosfera angustiante (ouça o audiobook do conto aqui). O Hóspede de Drácula (1914) é o conto de Bram Stoker (1847 – 1912). Originalmente, o texto era um trecho cortado do mais célebre romance do autor, Drácula (1897). Contudo, o conto foi publicado à parte somente após a morte do autor.

Um marco na obra de Lovecraft

De H.P. Lovecraft (1890 – 1937), temos Dagon (1919). Esse conto marca o início da construção de um universo incognoscível, habitado por criaturas e forças monstruosas. Posteriormente, Lovecraft criou um vasto repertório de entidades complexas. A figura de Cthulhu é apenas a mais famosa delas. Aqui, é possível detectar a grandiosidade mitológica que viria a ser desenvolvida (ouça o audiobook do conto aqui).

Uma curiosidade: o ser apresentado nesse conto volta a surgir na novela A Sombra de Innsmouth (1931). Por isso, sugiro a leitura casada. Além disso, se você quiser ver um pouco dessa história no cinema, há o filme Dagon (2001). É uma produção espanhola dirigida por Stuart Gordon. Apesar do título, o filme é uma adaptação da novela de 1931, e não do conto homônimo. Ainda que não seja completamente fiel ao texto, a obra audiovisual apresenta vários dos elementos mais apavorantes. E outro detalhe: da mesma forma como acontece em Dagon e A Sombra de Innsmouth, esse tipo de interligação entre diferentes histórias também surge em outros contos de Lovecraft.  

O mais assustador

Para mim, o posto de conto mais assustador do livro fica para O Corpo Roubado (1927), de H.G. Wells (1866 – 1946). O autor britânico é conhecido como um dos pais ficção científica. Foi o criador de obras célebres que até hoje rendem filmes e séries. Algumas das mais famosas são A Máquina do Tempo (1895), O Homem Invisível (1897) e Guerra dos Mundos (1898). Outra obra marcante é A Ilha do Dr. Moreau (1896), livro já resenhado aqui no blog (leia nossa resenha aqui). As histórias de Wells sempre apresentam uma boa dose de horror, através da exploração das possibilidades científicas. Nesse conto, ele parte de experimentos psíquicos para construir uma dimensão sobrenatural aterrorizante. 

Seleção brasileira

Os brasileiros na coletânea são autores com trajetórias literárias onde não predominou o terror, mas que em algum momento passearam pela ficção especulativa.

Única outra mulher da coletânea, a carioca Julia Lopes de Almeida (1862 – 1934) participa com Os Porcos (1903). Sem dúvida, é um dos contos mais cruéis que já li. A autora denuncia uma estrutura social perversa para as mulheres com cenas um tanto pesadas. Inacreditavelmente, pouco (ou nada) disso mudou nos dias atuais. Temática semelhante é abordada em Madrugada Negra (1921), do maranhense Viriato Corrêa (1884 – 1967). Tema similar, mas através de um enredo bem diferente. A crítica social também está presente em Sua Excelência (1920), do carioca Lima Barreto (1881 – 1922). Porém o autor aqui opta pelo viés do fantástico. Já A Casa “Sem Sono” (1923), do maranhense Coelho Neto (1864 – 1934), mergulha no insólito puro e simples. Vale ressaltar que o público brasileiro conheceu ou redescobriu Coelho Neto recentemente. A Editora Legatus publicou em 2020 seu romance Esfinge (1908), considerado o Frankenstein brasileiro.

De encher os olhos

O belo projeto gráfico merece destaque. O livro é um pouco menor do que os tamanhos tradicionais. Com 13x17cm, é aproximadamente do tamanho de um e-reader. Tem capa dura e fitilho preto. E dentro é de encher os olhos. As páginas todas são discretamente ornamentadas com cores e elementos que ajudam a firmar uma atmosfera lúgubre. Algo bem propício para a leitura de contos de terror.

Além disso, há ilustrações ao longo de toda a obra. São imagens que abrem e fecham o livro, e também antecedem cada conto, feitas por diferentes artistas. Uma ilustração do artista Oz abre o livro, e ele tem ainda mais duas artes entre os textos. Confesso que virei fã de seu trabalho. Leander Moura assina a ilustração de encerramento, a mesma que foi reproduzida nos marcadores disponibilizados. Os outros ilustradores entram com uma arte cada. São G. Pawlick, Immigrant, Marcel Bartholo, Cayman Moretti, J. L. Padilha, Fabricio Bohrer e Val Oliveira. A única mulher do grupo é a ilustradora Cristal Moura.  

Ilustração de Oz
Ilustração de Oz

Bom para iniciantes e para veteranos

Em suma, foi uma ótima leitura para conhecer alguns autores que eu nunca tinha lido e para vislumbrar outras facetas de autores que já me eram familiares. Para um leitor iniciante, ele funciona bem como um livro de introdução ao terror. Para o leitor já assíduo no gênero, é uma oportunidade de descobrir novos autores, textos ou fatos.  

Confesso que eu estava ansiosa por essa obra, pois tive a oportunidade de trabalhar na preparação dos textos do organizador Daniel Braga. Mas só li os contos posteriormente, quando a editora lançou o livro de fato. E que encantadora e assombrosa surpresa foi para mim fazer esse passeio por um século de horror.

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3 comentários em “Pequenos Contos de Grandes Mestres do Terror

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  1. Foi um prazer trabalhar com o Daniel e ser a tradutora desse volume. Ficou incrível! Obrigada pelo carinho com a obra 🥰

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