Meu Amigo Dahmer, por Derf Backderf

A adolescência de um assassino em serie

Meu amigo Dahmer é uma HQ publicada em 2012, por Derf Backderf. Traduzida em 2017 por Érico Assis e publicada no Brasil pela Darkside Books. De antemão deixo claro que o livro se localiza na fase juvenil de Dahmer. Vai se en encerrar após o primeiro assassinato do mesmo.

Meu Amigo Dahmer - Derf Backderf - Darkside Books

Em síntese, a HQ irá abordar as lembranças do autor, que era amigo de Dahmer na época do high school. Para tanto, além de suas lembranças, ele contou com entrevistas de demais colegas de classe, bem como, entrevistas dadas por Dahmer. Conta ainda com relatos de seus pais e o próprio livro autobiográfico sobre a relação dele com o pai, Lionel, após sua condenação. Soma-se ainda o relatório do caso já liberado para o publico pelo FBI.

Á primeira vista você estará adquirindo uma HQ baseada na historia real do Assassino Canibal de Milwaukee (como Dahmer ficou conhecido pelo publico). Entretanto a obra se mostra bem mais rica, tanto em conteúdo, quanto extras da edição. Além do quadrinho, você terá apêndices que incluem: a publicação original da história de 24 páginas, cenas extras e fotos tiradas pelo autor na escola.

Um menino estranho e solitário

Principalmente vamos conhecer Dahmer através do olhar de Derf e das experiencias compartilhadas por ambos. Eles moravam na mesma cidade e frequentavam a mesma escola. Nesse sentindo, o autor faz um ótimo trabalho narrativo ao nos apresentar ao cenário social vivenciado por ambos.

Sempre mantendo seu foco em Dahmer, como esperado, desde a adolescência o rapaz mostrava sinal de que havia algo bastante errado em seu desenvolvimento. Tímido, com enormes dificuldades em fazer amigos e interesses mórbidos. Simultaneamente ele tem uma família que o isolava. Seu irmão era mais novo tinha 7 anos de diferença, não partilhando o universo do jovem.

Seus pais viviam um casamento conturbado como casal, para agravar o quadro. Como indivíduos se apresentavam como um homem emocionalmente distante e uma mulher com sérios problemas psiquiátricos, incluindo vicio em medicações legais. Isto tudo culminou na saída de seu pai de casa e um divorcio envolvendo brigas e discussões. Obviamente, em sua maioria, as brigas eram testemunhadas pelo filhos.

Os amigos e a escola

Por outro lado, Dahmer se esforçava para fazer amigos na escola. Começou a levantar peso para afastar os apelidos e as brincadeiras de mau gosto por ser um menino muito magro. Retorna assim, quase irreconhecível das ferias de verão. Contudo este esforço se mostrou ineficaz, o menino se manteve alvo de comentários zombeteiros, devida sua postura e por ser considerado estranho.

Em seguida, faz um ultimo esforço que lhe valerá alguns amigos. Ele começa a simular convulsões, imitando sua mãe. Também imita o modo de falar e o gestual de um conhecido decorador da cidade, que tinha paralisia cerebral. Sua falta de empatia e constrangimento, assim como até uma certa crueldade, ao tornar estes assuntos “brincadeiras”, a principio encantou os colegas. Afinal, adolescentes são reconhecidos por testar limites sociais, além de sua inadequação frente a assuntos que deveriam ser tratados com seriedade.

Jeff Dahmer na época do high school

Palhaço da turma ou adolescente problemático ?

Como resultado de suas imitações desrespeitosas, Dahmer passa de desconhecido ao palhaço da escola. Contudo a escalada desse comportamento, faz com que seu isolamento não só se mantenha, mais acabe crescendo. Como resultado, seus amigos começaram a se assustar com o fato de nunca saber o que esperar dele. Paralelamente existe a sensação de que ele está sempre atuando e de que nunca, de fato, conheceram quem ele verdadeiramente era.

Juntamente com esses fatores, o jovem busca o consumo de grandes quantidades de álcool para se anestesiar da solidão e de sua família disfuncional. Não raro, ele desfilava pela escola com destilados em copos de plástico, como se fosse café. Segundo seus colegas, ele cheirava a álcool quase que a todo tempo.

Simultaneamente, quem estava ao seu entorno se surpreendia com a facilidade na forma como ele escapava de ser pego e consequentemente punido por adultos. Sua capacidade de manipulação e de “levar as pessoas no papo”, o leva ao extremo de conseguir para si e seu grupo um tour particular pela Casa Branca. Eles acabam ficando na presença do vice presidente norte americano Walter Mondale.

Onde estavam os adultos?

Por último gostaria de falar da pergunta posta em vários momentos pelo autor e fica sem resposta: Onde estavam os adultos? A indagação é importante uma vez que Dahmer demonstrava todos os sinais que não ia bem. Isolado, frequentemente alcoolizado, faltando regularmente a escola e com seu fascínio pela morte e ossadas animais. Onde estavam os professores, os pais ou mesmo qualquer adulto que pudesse ter ajudado? Um adolescente que não escondia os sinais de que algo grave estava acontecendo não era percebido por ninguém?

Vale deixar claro, que em momento algum seus atos e crimes sejam defensáveis, ou mesmo que ele possa não ser responsabilizado pelo horror que provocou. Contudo estamos falando de um homem que á época de sua condenação foi diagnosticado com transtornos esquizofrênico, de personalidade borderline e de personalidade psicopática.

Nenhum desses transtornos aparecem repentinamente, pois antes, são uma serie de traços genéticos combinados com gatilhos ambientais. Em síntese, quando falamos de personalidade e seu desenvolvimento (anormal e normal), falamos sobre toda a vivência de um sujeito. A adolescência é parte fundamental da personalidade pois a sedimenta.

Por fim, gostaria de falar que todos os assassinos em serie apresentam uma ou mais psicopatologias. Desta forma devemos entender esses sujeito, não tão somente como um problema jurídico, de segurança pública, mas também de saúde. Uma vez que abrimos esta via de interpretação, podemos abrir um rico e necessário debate sobre onde estão os cuidadores, as instituições e os profissionais de saúde que deveriam se dedicar as crianças e aos jovens?

Derf Backderf – O autor

Conclusão

Para concluir quero dizer que Meu Amigo Dahmer, não traz somente uma parte pouco explorada da vida de Dahmer. Ela traz para debate questões importantes sobre o sistema educacional, o papel da família e da sociedade. Desta última ela trata bem da responsabilidade nos momentos que decide de se abster ao presenciar o sofrimento mental de um jovem.

De modo algum digo que caso ele houvesse recebido a ajuda necessária, não teria cometido nenhum crime, ou ainda, teria se tornado um cidadão exemplar. Contudo fica claro que a falta destas condutas diminuiriam bastante a chance de um desfecho menos cruel. A consequência do descaso é sempre funesta, já a do cuidado pode (ou não) levar a outra saída.

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