O sobrenatural explicado

Se você já assistiu algum episódio de Scooby-Doo, com certeza entende bem o conceito do sobrenatural explicado. Como esquecer todas as situações que nos faziam jurar de pé junto se tratar de eventos sobrenaturais, só para no final descobrirmos que tudo tinha uma bela explicação racional (ou quase, já que se tratava de um desenho animado)?

Desenho Scooby-Doo.
Descobrindo o vilão ao final do episódio de Scooby-Doo.

O sobrenatural explicado é um recurso narrativo muito utilizado e que está presente em diversos gêneros literários. Ele nasceu nas obras da escritora inglesa Ann Radcliffe (1764-1823), considerada a mãe do gótico feminino.

A escritora fez do sobrenatural explicado mais do que sua marca de estilo, transformando ele em um mecanismo de reflexão, crítica e protesto. Para compreendermos como isso acontece, no entanto, precisamos falar um pouco sobre o gótico na literatura.

O nascimento da literatura gótica

O maior e principal momento de expansão da literatura gótica aconteceu no final do século XVIII e durante todo o século XIX. Nesse período, ocorria a Reforma, a Contrarreforma e a Revolução Industrial na Europa. Esta última teve um impacto fundamental na nova vertente literária que nascia.

Devido à Revolução Industrial, um forte movimento de êxodo ocorreu. A migração de pessoas para os grandes polos, como Londres e Paris, fez dessas cidades conglomerados de miséria, onde a condição de vida era precária.

O futuro havia se tornado algo incerto, por conta dos grandes avanços tecnológicos e as rápidas mudanças que ocorriam. A relação das pessoas com o passado e a tradição estava abalada, uma vez que as respostas para as suas inseguranças não mais se encontravam no conhecimento previamente passado de geração para geração. Assim, a literatura gótica nasce com uma visão desencantada e como um meio de expressar os medos e anseios da época em que ela está inserida.

As mulheres da literatura gótica

Embora o momento vivido fosse de pobreza e escassez, foi justamente durante esse período que o mercado editorial mais se expandiu. Isso porque os romances góticos e sentimentalistas – outra vertente que também nascia nessa época – eram considerados de qualidade inferior à poesia, tida como alta literatura. Em suma, isto conferia à essas obras um valor de aquisição bem inferior.

O público feminino era o maior consumidor dos romances góticos e sentimentalistas. As mulheres buscavam nos livros um meio de explorar outros mundos e fugir do ambiente doméstico, onde passavam grande parte do tempo. Nesse sentido, a literatura gótica foi responsável não apenas por alfabetizar grande parte do público feminino, mas também por profissionalizar essas mulheres, tornando-as escritoras e alimentando o mercado.

Ann Radcliffe foi uma das escritoras que mais se destacaram sem dúvida alguma. Ela é responsável por revolucionar a literatura gótica e dar início ao que chamamos de gótico feminino.

As heroínas góticas e o legado de Ann Radcliffe

Até então, as personagens mulheres dos romances góticos tinham um único papel a cumprir: ser castas, virtuosas, bondosas e, acima de tudo, deviam proteger sua virgindade com a própria vida. Ou seja, elas eram um conjunto de tudo aquilo que a sociedade exigia que uma mulher fosse.

Escritora Ann Radcliffe.
Escritora Ann Radcliffe.

Contudo, se essas personagens eram violentadas durante a trama, só havia dois finais para elas. Definhar até morrer, ou ser cruelmente punida por não ter protegido sua honra.

Ann Radcliffe foi a principal escritora a quebrar esse padrão. Ela construía personagens mais profundas e complexas, contendo tanto qualidades quanto defeitos.

Se antes essas mulheres tinham um papel a cumprir, Ann atribuiu uma função especial aos antagonistas masculinos. Outro recurso narrativo que virou sua marca: os vilões góticos.

Os vilões góticos e a hipocrisia

Ann Radcliffe construiu uma função complementar para os seus vilões. Esses homens agressivos, violentos, tirânicos e manipuladores não tinham escrúpulos quando se tratava de alcançar seus objetivos. A protagonista de Os mistérios de Udolpho (1794), Emily, que o diga (leia nossa resenha aqui).

Os vilões representavam a hipocrisia de uma sociedade patriarcal que exigia virtuosidade e castidade das mulheres, ao mesmo tempo em que as perseguia e ameaçava.

Além disso, os vilões também representavam a opressão que as mulheres vivam em ambiente doméstico. Elas eram alvo da vontade de seus pais, irmãos e maridos, sem ter quem as socorressem. Não é à toa que o ambiente doméstico era tão utilizado como cenário para as obras do gótico feminino.

O sobrenatural explicado e o verdadeiro perigo

Radcliffe não poupava seus leitores quanto às cenas em lugares assombrados e situações sangrentas em suas obras de terror. Sendo assim, conseguimos entender o espanto – perdão pelo trocadilho – quando ela introduziu o sobrenatural explicado.

Nasceu, então, o questionamento: apresentar uma explicação lógica para esses momentos sobrenaturais não diminuiria o terror de seus textos? A verdade é que o medo que sentimos à primeira vista fica impresso em nós e a explicação não tira esse impacto. Além disso, o sobrenatural explicado é um recurso de apoio para intensificar o verdadeiro terror de suas obras: os vilões.

Ela faz um jogo entre um recurso e outro. O sobrenatural pode sim ser assustador, mas o verdadeiro perigo está na presença dos vilões e antagonistas. Nesses casos, é melhor a protagonista ficar em alerta e procurar a saída mais próxima, porque ela vai precisar correr.

Assim, nas palavras de Ana Paula Araujo dos Santos, estudiosa da literatura gótica:

“As escritoras dessa vertente (do gótico feminino) unem a produção do medo à denúncia dos perigos vivenciados pelas mulheres em uma sociedade patriarcal, cujas leis nunca se mostram favoráveis a elas.”

Para conhecer mais sobre o tema:

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