O que é Folk Horror

Também conhecido como terror rural, o Folk Horror é um movimento que se consolidou principalmente no cinema, mas que tem suas origens na literatura.

Parnag Fegg - Folk Horror - Canto da Página - Canto do Gárgula
Imagem de Parnag Fegg, no filme In The Earth (2021), de Ben Wheatley.

Subgênero do terror, o folk horror está de volta aos holofotes graças a produções como A Bruxa e Midsommar. Antes, porém, de conversarmos mais sobre essa vertente, proponho uma brincadeira:

Imagine que você está viajando. Depois de horas de estrada, você está cansado e uma pequena comunidade rural parece ser um bom lugar para ficar. Passado algum tempo ali, algumas coisas parecem desencaixadas: os moradores apresentam um comportamento estranho e insistem em contar histórias sobre uma entidade maligna rondando as florestas da região. Então, uma atmosfera incômoda recai pelo lugar e você começa a pensar que talvez fosse melhor continuar a viagem.

Mais do que isso, coisas bizarras e macabras começam a acontecer. Num rompante de fuga, você descobre que seu carro parou de funcionar. Por fim, você se vê nesse lugar, sem ninguém para pedir socorro, e tendo a certeza de que algo muito ruim está prestes a acontecer. E agora, qual vai ser o seu próximo passo? O que você vai fazer?

As características do subgênero

Assim sendo, são características do folk horror:

  • Comunidades ou vilarejos do meio rural que são isolados;
  • Paganismo e bruxaria;
  • Rituais em florestas ou ruínas de templos antigos;
  • Presença de líderes religiosos ou ocultistas;
  • Seres sobrenaturais e sacrifícios humanos;
  • Forças míticas e místicas malignas.

Além disso é importante ressaltar alguns aspectos.

O isolamento é uma característica comum na maioria das obras de folk horror. A personagem principal se vê em um ambiente completamente diferente do que está acostumada. Essas comunidades pequenas geralmente apresentam hábitos que vão na contramão do que a personagem entende como “civilidade”, retratando, assim, lugares em que assassinatos, estupros e sacrifícios humanos fazem parte dos costumes locais.

Além disso, a ambientação das obras do subgênero se transforma em lugares atemporais. Esses lugares possuem suas próprias regras e costumes, na maioria das vezes dissonantes com o que acontece no restante do mundo. Sendo assim, para entendermos melhor de onde vem todas essas características do folk horror, vamos voltar um pouco no tempo.

As origens do Folk Horror

Embora o período de maior expansão do folk horror tenha sido por volta dos anos de 1960 e 1970, as primeiras obras pertencentes ao subgênero surgem no século XIX.

Durante esse período, a Revolução Industrial (1820-1840) estava acontecendo a plenos pulmões de ferro. Ou seja, os grandes avanços da modernidade atraíam os olhares para o futuro. Nesse sentido, o folk horror surge, então, como um movimento que explora o medo do passado, das crenças antigas e do primitivismo. Sendo assim, esse subgênero tão marginalizado no seu início, evoca em suas obras o passado tenebroso de uma Europa e Estados Unidos marcado pelo paganismo e pela caça às bruxas.

Nathaniel Hawthorne - Escritor
Nathaniel Hawthorne – Escritor

Uma das principais obras do subgênero é o livro Young Goodman Brown (1835), escrito pelo norte-americano Nathaniel Hawthorne. Igualmente importante no cenário britânico, podemos citar M.R. James. Seu conto, Toque o apito e virei ao seu encontro, rapaz (1904), está publicado no Brasil na coletânea Contos clássicos de fantasma (2020) pelo Sebo Clepsidra (leia nossa resenha aqui).

O culto da bruxaria na Europa Ocidental

Em 1921, foi publicada a obra The witch cult in western Europe, (O culto da bruxaria na Europa Ocidental, em tradução livre), da antropóloga Margaret Alice Murray. Estudando e analisando as antigas religiões existentes no continente europeu antes do cristianismo, a obra alavancou ainda mais o folk horror. Nesse sentido, sua presença povoava o imaginário dos escritores da época, aparecendo no conto O festival, de H.P. Lovecraft, bem como em uma das obras mais célebres do autor: O chamado de Cthulhu.

Ao longo dos anos seguintes, no entanto, o estudo foi duramente criticado por diversos pesquisadores, afirmando que a obra era generalista demais. Mesmo assim, o interesse no estudo da antropóloga foi renovado entre 1960 e 1970. O romance O Ritual (1967), de David Pinner, resgatou a obra de Margaret. Além disso, o livro serviu como base para uma das principais obras de folk horror no cinema: O homem de palha (1973), do diretor Robin Hardy.

O Estigma de Satanás e a consagração do Folk Horror

O estigma de Satanás - Folk Horror - Canto da Página - Canto do Gárgula
Banner do filme O estigma de Satanás.

Três filmes ficaram conhecidos como a “tríade profana”. São eles: O homem de palha (1973), O caçador de bruxas (1968) e O estigma de Satanás (1971), de Piers Haggard. Os três sendo considerados obras-primas do folk horror no cinema.

Dentre eles, O estigma de Satanás é o principal e mais genuíno do subgênero. Isso porque, além de possuir todas as características, o termo folk horror foi empregado pela primeira vez durante as gravações, quando um jornalista o usou para descrever a obra de Piers Haggard.

Ademais, em uma entrevista para a revista Van Gogh, o próprio diretor usou o folk horror para diferenciar seu filme das produções góticas da Hammer Film Productions.

A popularização do termo, no entanto, só aconteceu em 2010, graças ao documentário A History of Horror, do escritor e ator Mark Gatiss, da BBC, no qual ele cita a “tríade profana”.

Algumas obras e referências

Quando falamos de obras contemporâneas do folk horror no cinema e televisão, podemos citar:

Além disso, em relação à literatura atual, temos os livros e quadrinhos:

Outras referências interessantes:

O Folk Horror

O terror do folk horror não é considerado “jump scare“, tampouco estritamente psicológico. Com flertes com outro subgênero, o “gore” – pautado, principalmente, em sangue e violência – o terror do folk horror reside no estranhamento frente a culturas divergentes do que estamos acostumados.

Por fim, se encaramos as nossas metrópoles como um entendimento do que é ser “civilizado”, estar nessas pequenas comunidades rurais e vilarejos, tão afastados do que estamos habituados, faz com que mergulhemos em uma atmosfera de pânico. De acordo com o professor Alexander Meireles, do Canal Fantasticursos:

“O folk horror nos relembra de que, no fundo, somos animais.”

Alexander Meireles

Reconhecer isso é sem dúvida alguma um dos maiores pavores do ser humano.

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