A história dos zumbis

Da sua origem até obras como A noite dos mortos-vivos e The Walking Dead, os zumbis tiveram uma longa trajetória nas produções artísticas para se tornarem os monstros que nós conhecemos hoje.

Série Reality Z | Suzanna Tierie
Série Reality Z – Suzanna Tierie

Os mortos-vivos nasceram nos livros, mas se consagraram mesmo nas telonas. Essas criaturas povoam nosso imaginário e estão presentes em obras que vão desde a releitura de clássicos, como Orgulho e preconceito e zumbis, até jogos de videogame como Resident Evil e The Last of Us.

Longe da carne putrefata, do andar arrastado e da fome insaciável por carne humana, contudo, os zumbis têm sua origem na religião vodu, presente em um Haiti colonizado pela França.

Os primeiros textos sobre zumbis

O primeiro relato escrito sobre os mortos-vivos a ganhar visibilidade fora do Haiti foi o artigo que o jornalista Lafcadio Hearn escreveu para a Haper’s Magazine, em 1889.

Hearn estava interessado em estudar a cultura e o folclore caribenho e viajou até a Martinica em 1887. Dentre as várias histórias que ouviu, foi a do corps cadavres (mortos que caminham) a que mais chamou sua atenção. Os moradores locais, contudo, não se mostraram muito interessados em falar sobre esses monstros misteriosos que andavam à noite. Apesar de Hearn conseguir reunir pouca informação sobre o assunto, ele publicou seu artigo assim mesmo, sob o título de The country of the comers-back (“A terra dos que voltam”, em tradução livre).

Ainda que o artigo tenha alimentado a curiosidade das pessoas sobre os mortos-vivos, a popularização do tema só ocorreu em 1928, graças ao jornalista William Seabrook, amigo do famoso ocultista Aleister Crowley. Na época em que Seabrook foi para o Haiti, o país era considerado a capital do vodu. Ele teria conhecido um zumbi de verdade, apresentado pelo fazendeiro Polynice. O jornalista conseguiu reunir informações mais detalhadas e aprofundadas que Hearn e escreveu vários livros sobre os mortos-vivos. O mais célebre deles, responsável por consagrar os zumbis fora do Haiti, foi o Ilha da magia.

Assim como ele, a escritora e antropóloga norte-americana Zora Neale Hurston também foi para o Haiti estudar a cultura local e o vodu. Enquanto fazia suas pesquisas, Zora conheceu outro zumbi: Felicia Felix-Mentor. Zora tirou várias fotos de Felicia como prova de que zumbis existem de verdade, posteriormente publicadas na Life Magazine.

A origem dos zumbis

Por mais que os zumbis tenham ficado conhecidos graças à cultura haitiana, sua origem ocorreu do outro lado do Atlântico: na África.

No idioma mitsogo, do Gabão, ndzumbi significa “cadáver”, enquanto nzambi quer dizer “espírito de um morto” em quicongo, falado no antigo Reino do Congo (hoje uma língua nacional na Angola). Esses foram os principais lugares onde a França e a Inglaterra sequestraram pessoas para serem escravas nas suas colônias.

Os recém-chegados ao Haiti eram obrigados a se converterem ao catolicismo, não antes de muita resistência. Assim, na tentativa de preservar suas culturas, surgiram religiões elaboradas na mescla entre diversas tradições, como é o caso do vodu no Haiti, do obeah na Jamaica, e da santeria em Cuba.

Assim, a religião do vodu é pautada na possessão de corpos pelos deuses. Em seus rituais, a música e a dança levam a estados similares ao transe, o que abre as portas para que os deuses possam ser incorporados. Quando isso ocorre, a alma essencial da pessoa é retirada do corpo e a possessão se completa.

O problema, contudo, acontece quando um feiticeiro mal intencionado coordena os trabalhos e leva suas vítimas à “morte” da alma por meio de poções e magia. Com o óbito decretado, o feiticeiro então capturava a alma essencial e, logo depois do enterro, trazia o corpo de volta à vida. Ou seja, transformando-o em zumbi e obrigando-o a trabalhar como seu escravo.

Dessa forma, era comum que os familiares montassem guarda diante do túmulo dos seus entes queridos para impedir a aproximação dos feiticeiros mal intencionados.

Os zumbis dominam o cinema

A independência do Haiti, infelizmente, foi alcançada com muita violência e muito banho de sangue. Quando, enfim, o país se tornou a segunda nação negra independente do hemisfério ocidental, os Estados Unidos, então uma potência emergente, não demorou a olhar para o Haiti.

Sob o discurso de modernizar o país e proteger interesses americanos e estrangeiros, os Estados Unidos ocuparam o Haiti. A operação durou até 1934 e, de fato, acalmaram um pouco os ânimos por lá. Posteriormente, quando a ocupação acabou, os estadunidenses voltaram para casa com um novo monstro enraizado na mente: os zumbis.

Ao mesmo tempo que isso acontecia, os filmes e as peças de terror estavam se popularizando. Obras do expressionismo alemão, como o filme O gabinete do Dr. Caligari (1919) e a peça de teatro Drácula (1927) foram importantes para fomentar produções americanas como O fantasma da ópera (1925) e Frankenstein (1931).

Essas duas produções, inclusive, prepararam terreno para a estreia nas telonas do primeiro clássico dos filmes de zumbi, o White Zombie (1932), produzido por Victor e Edward Halperin.

Embora o gênero e a temática estivessem em expansão, o alto custo de produção e o retorno financeiro incerto faziam do filme um empreendimento arriscado. Pensando nisso, Victor e Edward chamaram Bela Lugosi, estrela do cinema na época. Esta se mostrou uma ideia acertada, arrecadando surpreendentes 8 milhões de dólares de bilheteria.

Após o sucesso de White Zombie, várias outras obras foram produzidas, mas poucas alcançaram o mesmo prestígio. Isso fez a temática dos zumbis perder força até ser rebaixada às classes mais baixas da cinematografia. O que mudaria radicalmente dentro de alguns anos.

George A. Romero e a revolução dos zumbis

Encarte do filme "A noite dos mortos-vivos".
Encarte do filme “A noite dos mortos-vivos”.

A noite dos mortos-vivos, filme de George Romero lançado em 1968 é, até hoje, considerado o principal marco nas histórias de zumbis. Com o baixo orçamento de 114 mil dólares e financiado com o dinheiro do bolso dos próprios produtores, a produção revolucionou os mortos-vivos, transformando-os no que conhecemos hoje:

  • Se anteriormente os zumbis não faziam mais do que assustar ou estrangular suas vítimas, no filme de Romero esses monstros passam a ser canibais, sofrendo com a eterna fome de carne humana.
  • Além disso, a influência de outro mestre do cinema, Alfred Hitchcock, faz com que Romero eleve o nível de terror que as narrativas de zumbis continham para outro nível. Se com Hitchcock o assassino pode morar ao lado, com Romero, os mortos-vivos são nossos vizinhos, amigos, e nossa família. Os zumbis deixam as conotações místicas do vodu e passam a se ambientar no nosso mundo. O que antes era tranquilo e seguro, torna-se um verdadeiro pandemônio.
  • Bem como a dimensão apocalíptica que as obras de zumbi costumam tomar também nasce com Romero. Em um mundo varrido pelos mortos-vivos, fica evidente nossa decadência como seres humanos. Aos poucos sobreviventes resta apenas a coletividade para tentar se salvar e, mesmo diante do caos, as pessoas parecem não compreender isso.

Resident Evil e The Walking Dead continuam a tradição

Resident Evil 2: Remake
Resident Evil 2: Remake

Romero não apenas revolucionou o imaginário zumbílico, ele criou uma verdadeira tradição. As características que esses monstros ganharam na sua produção, além de se popularizarem nas diversas obras que vieram depois, são utilizadas até hoje.

A franquia Resident Evil, lançada em 1996, por exemplo, foi um marco para os videogames e para as narrativas de zumbis. Pioneiro na categoria de games horror survivor, o jogo é o responsável por reafirmar o terror presente nessas histórias, além de ser um verdadeiro sucesso transmidiático. Suas produções vão de jogos de videogames a livros, passando por filmes live action, animações e, mais recentemente, uma série na Netflix.

Outra produção que chegou para enaltecer os zumbis estreou no dia 31 de outubro de 2010. Baseada na história em quadrinhos criada por Robert Kirkman, a série The Walking Dead conta hoje com dez temporadas, sendo considerada a série de terror de maior sucesso do mundo. A HQ recebeu o Eisner Award de Melhor Série Contínua na San-Diego Comic-con, a maior feira de quadrinhos do mundo.

O nosso amor por zumbis

Em suma, o amor e o fascínio que sentimos ao consumir narrativas com zumbis parece vir exatamente do medo que sentimos desses monstros.

Olhar para os mortos-vivos é certamente encarar a decadência humana. São milhares de hordas alimentadas pelo consumismo e pela manipulação midiática. Perdemos justamente aquilo que nos faz sentir superiores a qualquer outro animal: nosso lado racional. Como zumbis, somos transformados em bichos que não fazem outra coisa senão correr por aí, tentando saciar um desejo que é eterno e insaciável.

Em outras palavras, os zumbis são avisos perigosos de tudo o que falhamos, ou estamos falhando, enquanto humanidade.

Por fim, ao prestigiar uma obra com mortos-vivos, lembre-se de perguntar a si mesmo: em qual lado você estaria? Dos zumbis ou dos sobreviventes?

Para saber mais sobre o assunto:

Obras para devorar

Cinematográficas e televisivas:

Literárias e HQs:

Jogos de videogame:

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